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Quem é você, Alasca?   
O medo é a desculpa que todo mundo sempre dá.
Carlos Drummond de Andrade.  
Mesmo antes de nascer, já tinha alguém torcendo por você. Tinha gente que torcia para você ser menino. Outros torciam para você ser menina. Torciam para você puxar a beleza da mãe, o bom humor do pai. Estavam torcendo para você nascer perfeito. Daí continuaram torcendo. Torceram pelo seu primeiro sorriso, pela primeira palavra, pelo primeiro passo. O seu primeiro dia de escola foi a maior torcida. E o primeiro gol, então? E de tanto torcerem por você, você aprendeu a torcer. Começou a torcer para ganhar muitos presentes e flagrar Papai Noel. Torcia o nariz para o quiabo e a escarola. Mas torcia por hambúrguer e refrigerante. Começou a torcer até para um time. Provavelmente, nesse dia, você descobriu que tem gente que torce diferente de você. Seus pais torciam para você comer de boca fechada, tomar banho, escovar os dentes, estudar inglês e piano. Eles só estavam torcendo para você ser uma pessoa bacana. Seus amigos torciam para você usar brinco, cabular aula, falar palavrão. Eles também estavam torcendo para você ser bacana. Nessas horas, você só torcia para não ter nascido. E por não saber pelo que você torcia, torcia torcido. Torceu para seus irmãos se ferrarem, torceu para o mundo explodir. E quando os hormônios começaram a torcer, torceu pelo primeiro beijo, pelo primeiro amasso. Depois começou a torcer pela sua liberdade. Torcia para viajar com a turma, ficar até tarde na rua. Sua mãe só torcia para você chegar vivo em casa. Passou a torcer o nariz para as roupas da sua irmã, para as idéias dos professores e para qualquer opinião dos seus pais. Todo mundo queria era torcer o seu pescoço. Foi quando até você começou a torcer pelo seu futuro. Torceu para ser médico, músico, advogado. Na dúvida, torceu para ser físico nuclear ou jogador de futebol. Seus pais torciam para passar logo essa fase. No dia do vestibular, uma grande torcida se formou. Pais, avós, vizinhos, namoradas e todos os santos torceram por você. Na faculdade, então, era torcida pra todo lado. Para a direita, esquerda, contra a corrupção, a fome na Albânia e o preço da coxinha na cantina. E, de torcida em torcida, um dia teve um torcicolo de tanto olhar para ela. Primeiro, torceu para ela não ter outro. Torceu para ela não te achar muito baixo, muito alto, muito gordo, muito magro. Descobriu que ela torcia igual a você. E de repente vocês estavam torcendo para não acordar desse sonho. Torceram para ganhar a geladeira, o microondas e a grana para a viagem de lua-de-mel. E daí pra frente você entendeu que a vida é uma grande torcida. Porque, mesmo antes do seu filho nascer, já tinha muita gente torcendo por ele. Mesmo com toda essa torcida, pode ser que você ainda não tenha conquistado algumas coisas. Mas muita gente ainda torce por você. Se procurar bem você acaba encontrando. Não a explicação duvidosa do mundo, mas a poesia inexplicável da vida. Eu torço por você.
A vida teima em dar errado.
John Mayer
Eu não confio em mim mesmo quando estou te amando.
John Mayer
Eu queria saber as vezes
Sobre o resultado
De uma vida ainda sem resultados
Será que estou vivendo ela direito?
John Mayer 
Não tenho certeza de quem eu procuro, eu vou saber quando eu te ver.
Sereno.  
Você abriria mão da sua felicidade pra ver alguém que ama sorrir?
Os Sonhadores.   
Sim, eu estou bêbado. E você é linda. E amanhã de manhã, eu estarei sóbrio, mas você ainda será linda.
Cinzento 
Um dia eu acordei, mesmo quando eu não sabia acordar. Um dia eu dancei com as luzes, eu senti o gosto amargo dos sons na minha boca suja de sangue, eu vi máscaras quando eu não sabia criar metáforas e amigos com elas, eu sorri enquanto chorava por não saber diferenciar o que é dor e o que é vida, e até hoje confesso que tenho medo de ter me confundido pra sempre. Um dia eu vim ao mundo e o mundo me veio meio batido, meio fim de feira… Mas só tinha ele e só tinha eu. E era uma existência não espontânea, receita caseira, uma reação em cadeia que ocasionou em milhares de prótons, centenas de milhares e mais alguns milhões de átomos, tudo misturado feito carne moída em açougue, a eletricidade dos meus neurônios em festa… E foi então que eu chorei. Um dia, deitado no primeiro colo que me rejeitou, aprendi o que é perder a paz sem ter consciência suficiente pra conseguir apreciá-la, e agradecer. Eu tenho o cansaço enfiado dentro das minhas entranhas e inaugurei o pacote de desistência quando meus pulmões se acostumaram com o oxigênio desse mundo com cheiro de morte, exatamente no momento em que o resto da humanidade soube que eu estava vivo. O espelho ri da minha palidez e eu rio do meu futuro, por desconfiar que meus pés vazios repousam no cansaço. Que minhas retinas ficam mais ultrapassadas a cada dia que passa e eu me vejo passando, enferrujado, pelos riachos de uma imensidão descontrolada que é controlada pelo meu limite mental. O aquário é o oceano pra quem nunca saiu de lá. E o oceano vira um aquário pros peixes que não se contentam com o reflexo da Lua. E talvez o meu reflexo seja a felicidade primitiva e criativa. Aliás, se eu tivesse o poder de criar um mundo, eu não criaria. Eu me limitaria em deixar a barba crescer e viveria afastado nas montanhas utópicas, frágeis como as verdadeiras nuvens, aquelas livres dessa física humana e mortal. O tempo é, em suma, uma perda de tempo. E, principalmente, uma perda de sanidade. Eu seria o Criador daqueles que não nasceram, e eles me seriam gratos. Mas eu seria o Diabo daqueles que não morreram e estão no fundo do poço. No fundo do poço da minha mente, daquele buraco de onde eu nunca deveria ter saído, e não sei se um dia voltarei a entrar. Tirando por mim, o Universo é um desencargo de consciência e uma limpeza de espaço. As paredes do útero se desprenderam e um dia eu existi, quando eu não sabia existir. Nós, seres humanos, só não nascemos aprendendo a falar porque, se por falha da sobrevivência, nós pudéssemos, diríamos então: “mamãe, por que?” E o silêncio seria abortado. A mordaça seria retirada. E choraríamos, finalmente, pelo simples prazer de chorar.
Charles Bukowski.  
Nunca fui elegante. Minhas camisas eram todas desbotadas, encolhidas, surradas, e já tinham cinco ou seis anos. Minhas calças, a mesma coisa. Detestava as grandes lojas, detestava os vendedores, eles se faziam de superiores, pareciam conhecer o sentido da vida, tinham uma segurança que me faltava. Meus sapatos eram sempre velhos e estropiados, e eu detestava lojas de sapatos também. Nunca comprava nada novo, a menos que as minhas coisas já estivessem completamente inutilizadas – automóveis inclusive. Não era questão de economia, é que eu não tolerava ser um comprador na dependência dos vendedores, aqueles caras tão altivos e superiores. Além disso, eu perdia tempo, um tempo em que eu poderia muito bem estar de papo pro ar, bebendo.
Amsterdã, 1957.   
Eles me chamam de teimoso.
Como se “teimoso” fosse uma coisa ruim.
Definitivamente não. Pelo contrário,
Teimosia é uma das maiores qualidades num homem.
Pedro St.  
Palmas para ele em seu fracasso substancial, composto por letras sonoras e impressas, escritas e voláteis. A ausência de sentido lhe deu uma enciclopédia fracassada pelo glossário inacabado, pelo Desassossego como último termo… reticências, espere, inspire – “mas nunca transpire, não deixe exalar toda a beleza que foi armazenada como combustível para construir um império enciclopédico” – Calma menino, a vida precisa de freios, de transpiros, de ensaios que nunca terminam porque até mesmo o grande show é um ensaio de como fazer melhor no próximo. Ele não tem calma, só tem uma puta ânsia pelo logo, pelo já e agora. Tão impaciente quanto um fio de luz que viaja a 299 792 458 m/s no espaço e que não volta mais, que atropela e atravessa todos os corpos sem chance de retrocesso. Fracasso. Se sua substância são letras e se elas já não fazem sentido, tudo o que lhe continha agora está perdido. Se suas letras já não alcançam mais o êxtase, tudo o que lhe resta é puro back. Palmas para impaciência de espírito que inflama o dom da Fênix de sair das cinzas e ser, de novo, completa. Pois é, ele não saiu das cinzas. Agora cessam as palmas em reverência ao óbvio, ele veio a óbito.
Amsterdã, 1957. 
Guarda chuva.
Guarda tua chuva interior.
Que tem cheiro de saudade molhada.
C    redit