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Amsterdã, 1957.  
Escrevo com sangue teu nome nas paredes de minha alma. Desistiu, partiu, se jogou num buraco, foi e não voltará mais. Ficar só me mostrou o quão perto do nada estou. Meu coração bombeia angústia e medo. Teoricamente tu não passa de uma assombração diária, um delírio, um capricho do meu próprio ego. Meu melhor capricho baby. Adentrei ao oceano, tinha essa visão bonita de que entrar no mar era receber o abraço da terra. Saio vencedor, puro. Te esqueço, como se tudo não passasse de um sonho ruim. Teus sonhos lavados com minhas lágrimas não aconteceram, meus olhos até outrora vestidos d’água, já não te procuram mais. Aos poucos vou saindo do abismo que foi deixado em mim. Enfim, sou céu.
secretaria da morte e sereno 
Fantasmas e flores me assombravam, a morte era minha companheira, vivia no escuro, escondido, ausente de tudo, mas era presente na essência de todo ser. Não entendo como acabei assim, mas não questionava, apenas sentia um desejo de permanecer ali, imóvel, quieto. Quando chegou a hora de ir, escolhi ficar. Comecei a cultivar algumas flores lá no fundo de casa, carreguei tanto adubo que chuva alguma me lavava, escorri dos olhos o perfume que precisava, extrai do coração o tempero que faltava na minha comida, dos meus fantasmas dei cabo em meio a orações e tratados de vida, Versalhes estaria no chinelo, eu coube em mim mesmo como antes nunca havia sonhado, ri tanto da vida que consolei-me com ela e aquela tal solidão, solidifiquei os meus traços e fiz-me gelo enquanto o inverno partia, em meio as rosas que antes me feriam a agora só faziam me acariciar.
Sereno.   
É nisso que se resume a vida. Nesses pequenos momentos de impacto, e em como você consegue lidar com cada um deles. Somos todos tolos sem exceção, infinitos no limite de cada um.
O fim é o mesmo para todos nós, posso ser o homem que mais amou ou o mais estúpido, ou até mesmo ambos. Não importa, a morte é igualdade entre os seres. Sentei no topo de uma aglomeração de areia que separava uma lagoa do oceano, pensei em quanto tempo levou para aquilo se formar naturalmente. Sentei e senti. O horizonte tornou-se pequeno, poderia coloca-lo no bolso se assim deseja-se. No alto daquela duna eu poderia conversar com Deus e pela primeira vez me sentir forte, seguro, intocável. Havia alcançado a imortalidade.
Estamos presos em nossa mania de grandeza, sem saber o quão pequenos somos aos olhos do tempo. Sim o tempo. Rei, absoluto e incontestável. Senhor de tudo aquilo que conhecemos e sentimos, e também do que não queremos lembrar. O tempo anda dolorido, carrega em si os males de todos nós, sua bagagem é infinda. Se não fosse o tempo estaríamos em uma época de plena loucura ou talvez o contrário. Quem é o tempo? Eu sou o tempo. Quando preciso ser, é claro.
Sereno. Nietzsche estava certo, Deus está morto 
Deus, se tu existir vou te encontrar. Sei que Nietzsche narrou teu assassinato certa vez, mas preciso confirmar tal feito. Não suporto mais ouvir mamãe chorar, meu pai não morreu por tua vontade, um ser abstrato que se intitula todo poderoso. Respeito aqueles homens que entraram comigo sem medo nos teus desertos vazios. Vamos te exorcizar e acabaremos de vez com essa tua falsa benevolência. Teus seguidores cairão e nosso feito se elevará aos céus, eu serei o deus rei. E como primeiro decreto, darei um fim a esse título. Homem nenhum poderá usar da ingenuidade alheia para se proclamar soberano. Desolação vem sobre o céu. Se isto vai terminar em fogo, então vamos queimar juntos. Eu assumo a responsabilidade, eu sou o culpado. Eu matei Deus, dentro de mim.
Sereno. O Filho de Estrelas.  
27 de dezembro de 2004. Satélites registraram a maior explosão cósmica já captada. São nossos irmãos vindo até nós. Não estarei mais aqui, passarão-se eras até a chegada deles, mas já estão a caminho.
O universo é vasto, surpreendente. Entenda. Quanto mais se quer saber, mais dúvidas se tem. A vida literalmente cai do céu, mas ela vem de muito mais longe do que nossos olhos conseguem enxergar. Você, eu, seus parentes, aquela garota de quem você gosta, seu time de futebol, sua música favorita e tudo o que nos rodeia já esteve em algum lugar do espaço. Sem estrelas não haveria nós.
Vasculhamos a via láctea e descobrimos que estamos condenados ao suicídio do sol. Isso mesmo, em alguns bilhões de anos nosso sol irá inchar até explodir e nos engolir junto. Nosso destino está ligado ao destino das estrelas. Seremos devorados pela fome voraz de uma gigante vermelha no céus e receberemos o abraço caloroso da morte.
Mas quando se trata de nossas mães celestes, o princípio do fim é um novo recomeço. Sou o resto de estrelas mortas, a sobra de uma batalha épica e feroz entre fusão e gravidade. Sou poeira cósmica.
Sou filho de estrelas.
Anarquismos.   
Somos todos feitos de podridão. Urubus rodeiam e se esbaldam na carniça que é nossa alma. Somos todos um bando de miseráveis que se enterram em suas ignorâncias e jogam ao ar o cheiro e o amor mal passado. Somos fúteis, sou fútil, você é fútil e mergulhamos todos na futilidade uns dos outros. Maldito ser humano. Todos. Podem me chamar de generalizador, podem me dizer que existem seres humanos bons e toda aquela baboseira de sempre. Mas não! O ser humano tem entranhado em seu ser o desprezo e a superficialidade. Choros, risos, alegrias, tristezas: tudo isso tem uma ponta de mau caráter e de mesquinharia. Sinto um ser humano chegar quando está a quilômetros de distância, pois o fedor que sua alma exala é tamanho que até um velho rabugento com o nariz entupido consegue sentir. É a realidade pura, nua e crua que vai de encontro com a sua cara e te dá um tapa e deixa as marcas dos dedos pelo resto do dia. Chega de dormir. Chega de achar que o ser humano tem algo de bom, porque não. Somos todos oriundos da podridão e somos moribundos em nossas cabeças grandes. Somos feios por meio e por inteiro. (Tosse).
Charles Bukowski. 
Eu tenho recebido muitas ligações. São todas parecidas: “Você é Charles Bukowski, o escritor?” “Sim”, eu digo a eles. E eles me dizem que entendem minha escrita, e que alguns deles são escritores ou querem ser escritores e que têm trabalhos entediantes e horríveis e que não conseguem encarar o quarto, o apartamento, as paredes; a noite — eles querem alguém com quem falar, e não conseguem acreditar que não posso ajudá-los, que não sei quais são as palavras. Eles não acreditam que eu, com frequência, me enrolo no meu quarto, aperto minhas entranhas e digo: “Jesus, Jesus, Jesus, não de novo!” Eles não acreditam que as pessoas sem amor, as ruas, a solidão, as paredes também me pertencem. E quando desligo o telefone, eles pensam que escondi o meu segredo. Eu não escrevo por sabedoria. Quando o telefone toca, eu também gostaria de ouvir palavras que possam aliviar um pouco. É por isso que meu número está na lista telefônica.
Sereno. O Filho de Estrelas.  
Me tornei uma espécie de ateu, parte de minha fé foi sugada. Eu ate acredito que exista algo divino, algo que olha por muitos de nós. Já na igreja me nego a crer. Não acreditar que a vida veio das estrelas, não acreditar que existe vida fora da terra? Se a igreja acredita nisso eu me nego a crer nela. Sei que não estamos sozinhos neste universo. Seria egoísmo demais pensar o contrário. Religião matou mais do que guerras, que Deus sedento por sangue é esse? Deus não é isso, a ganância dos homens é o verdadeiro “Deus” por trás de tudo. Temos o livre-arbítrio, o que nos dá o controle sobre os nosso atos. Não somos fantoches. Temos consciência e racionalidade, ou deveríamos ter. Sou taxado pela sociedade, muitos acham que posso ser um “louco” por falar que sou filho de estrelas, ou pensam que sou um potente suicida por fazer menção a morte. Não é assim que funciona. Entenda, não escolhemos a morte, ela nos escolhe. Suicídio é uma ilusão. Apenas aceito a morte como uma velha amiga e as estrelas como minhas verdadeiras mães. Apesar de tudo minha crença permanece firme em ambas. Como costumo dizer, “A morte é igualdade entre os seres.” Penso que talvez morrer seja a única forma de voltarmos para casa. Quem garante que a vida não seja a morte ou vice-versa? Ninguém pode provar que não estamos “mortos” aqui. Agora.
Sereno em um poema cronologicamente instável. 
Engoli as estrelas, o choro e a morte. Bebi do riso, da alegria e do cansaço. Sentei no banco, no abismo, fui e voltei. Olhei com os ouvidos, ouvi com os olhos, toquei com a boca, e beijei com as mãos. Deixei minha vontade ali, mansa, morna, quase morta. Se ela voltar um dia, eu a tomo devagar. A inteligência é a maior benção concedida a nós, por nós mesmos. E quem disse que a loucura não é uma vertente da mesma? Meus caros, a inteligência não está naquele que pensa, mas sim naquele que num momento de incerteza age por instinto. Inteligência não tem nada a ver com estar certo ou errado, inteligência é ouvir a própria intuição e seguir em frente, mesmo que isso o leve a morte, ao medo, ao fim. O fim? Nada é mais bonito e certo que o fim pelo fim. Sem motivos ou egoísmo. Apenas gratidão.
Mais poderoso é o povo que supera e vence as limitações, enfrenta as terríveis condições da vida e marcha em frente, para o futuro.
Denison Mendes, no livro “Bonsais atômicos”. Rio de Janeiro: Multifoco, 2010 
E o médico perguntou: o que sentes? Sinto lonjuras, doutor. Sofro de distâncias.
Jane Austen, no livro “Orgulho e preconceito”. [tradução: Lúcio Cardoso]. São Paulo: Abril Cultural, 1982  
[…] são poucos os que têm o coração bastante firme para amar sem receber alguma coisa em troca.
A Seleção 
Nós dois nunca fomos apenas amigos. Desde o primeiro momento em que o vi, eu o amei.
C    redit